As pessoas me perguntam o porquê do blog andar parado, e eu digo que quando a vida está muito interessante nada me faz querer escrever no blog, mas é mentira. Primeiro porque a vida não está lá tão interessante: voltei a ter uma rotina, ainda que eventualmente marcada por crises de insônia como as de hoje - mesmo assim, rotina. Acordo, leio, escrevo, voltei a ir ao cinema. Segundo porque estou sem saber como escrever pra mim. O trabalho de crítico sempre foi um exercício para o ego, é claro, mas era antes pelos filmes que por mim que eu escrevia. A culpa era sempre dos filmes, e nos últimos tempos eles voltaram a implicar tanto comigo e me irritar a ponto de precisar escrever sobre eles. Há um ritmo ainda a se encontrar, mas depois de seis meses de inverno, puro inverno, pareço ter recuperado algo do vigor de antes. Algo só - mas algo já é o bastante para te levar para o inferno, diria um diabo sorridente. Estou empregado como roteirista de um longa-metragem de ficção, numa jogada que pode me custar outras tantas crises de insônia por aí. Adaptação de um livro do qual, combinamos, podemos desviar o quanto for preciso - e eu desvio, vou longe e quando volto já não estou aqui: mas se até agora tergiverso, tergiverso em nome de outrem, uma história que não é minha. E o blog devia ser este espaço, mas me peguei num caso seríssimo de autocensura esta semana. Existiram dois shows do Radiohead, e eu só saberia falar deles a partir de coisas que nunca foram ditas a ninguém, porque o Radiohead é a trilha sonora de tudo o que é surdo na minha vida, e que vá de retro a surdez quando se trata de um lugar lido por amigos que me ligam pra saber se estou vivo, por amores novos e antigos, pela minha mãe, por alguns leitores que acham graça dessa diferença do crítico marrento e do moleque blogueiro. Ainda é cedo demais pra se falar em verdade por aqui, convenhamos. Mas era o caso de escrever, pra mim pelo menos. Estou aqui numa madrugada de merda: MSN até as duas, fumar o último cigarro ouvindo Leonard Cohen, dormir vendo um velho filme dublado de James Cann, mas não dorme-se, e aí é The Auteurs tocando agora, mas abro a tampa do computador de novo, fico vendo trechos de filmes que não fiz, lendo blogs de uma gente que não conheço, e a música que vem à cabeça é "La Maison Dieu", mas por que alguém escutaria Legião Urbana no repeat às 6h40 da manhã? Ask the dumb guy runnin' my head. Vou escrever um monólogo de jazz pra fazer no teatro, é um banco e um microfone daqueles dos anos 50 na boca do palco, e eu contando histórias, até que no fim tem uma banda, um baixo, um piano e uma bateria, e eles tocam uma música que é o fim apoteótico da história desse cara que fui ali na boca do palco, na hora anterior, e agora é só questão de preencher esse espaço aí no meio, entre pisar no palco e deixá-lo. "Toda estréia é um sucesso", fico me lembrando disso, quero champanhe e putaria no camarim depois da estréia - traga esse microfone, ele pode ser útil. E tem um roteiro meu, e tem um romance meu, mas tudo que é meu tem que esperar até depois do último contracheque, porque não se paga a energia desse computador ligado por dias a fio apenas com boa vontade. Lembrei de um poema de um americano (ou seria inglês) que diz que para escrever é preciso limpar a casa, lavar as paredes, a louça, polir os móveis, que só nasce literatura da limpeza sacrossanta do ambiente em que ela se dará, e fico pensando se não é o caso logo de arrumar uma empregada e resolver meu bloqueio. Que seja alfabetizada - uma vez eu escrevi uma história de um músico que não conseguia terminar uma música, e então descia puto pelas escadas do prédio pra comprar cigarros, fazia um frio da porra (era Nova York, 1971, uma quinta-feira de fevereiro), e aí encontrava na escada da frente uma índia com umas roupas minúsculas, ridículas, morrendo debaixo da neve, e aí ele chamava a índia pra subir, ela fazia sua cama ao pé do aquecedor, os dois trepavam, comiam, ela não falava nada, nem um puto de inglês, e o cara vivia bem com isso, se ela falasse talvez não se sustentasse pela noite, mas ela ficava ali calada, e ele bebia até quase vomitar, mas antes disso dormia, até que no dia seguinte acordasse e visse que a índia tinha fugido, "the next day I woke up and she was gone. She obviously took my wallet, but then, she corrected the lyrics for me. She corrected and it was beautiful, I could never write anything like that. The paper was just lying there, on the floor, with those cute little prostitute letters all over it. The song that made my way, the fuckin' song you're just humming right now, and my indian never-seen-again lover, she wrote it". Talvez o que me falta é o frio, sempre vejo pessoas abrigáveis no frio, elas talvez topem uma caminha ao lado do aquecedor. Vou escrever a peça. Vou montar uma banda de jazz. Vou, vai vendo que vou.
posted by RODRIGO DE OLIVEIRA 06:58contato