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21.12.08

NO TOPO DE COPACABANA



Na Francisco Sá, apontando para Ipanema (e o Dois Irmãos tampado por uma parabólica), nos únicos 10 minutos de céu azul em quase duas semanas. Lindíssimos 10 minutos de uma manhã de quarta-feira de dezembro.
posted by RODRIGO DE OLIVEIRA 13:03 contato

11.12.08

PARA O CASO DE UM DIA TERMOS SIDO
(um conto)


Foi só muito tempo depois que descobri que era ele. Quando surgiu na minha frente – e é verdade que estava de costas, mas estas são coisas que a memória revira e o destino nunca se ressente de nos apresentar assim, às avessas – quando surgiu na minha frente e o que podia ver era apenas sua nuca, o cabelo mal raspado e aquele resto de pêlo que escapa na direção das costas, ali não me pareceu tão decisivo, e certamente não o reconheci. Até que se virou, lançou o copo em minha direção como se me soubesse e me atravessasse, mas nem isso podia ser bem um sinal, posto que não fazia mais que responder ao grito não endereçado que eu mesmo dera logo há pouco: era eu, uma cerveja na mão, um “você aceita?” na boca, e agora o braço estendido, mas nem os sorrisos de cumprimento mais-que-suficiente para o contato primeiro entre dois estranhos, nem o olhar trocado e alguma piada estendida a qualquer um que ali estivesse (os outros garotos e garotas cujos copos eu agora também enchia), nem assim ainda éramos. Não mais que copos e um pouco de graça.

Aos garotos e garotas o álcool ia servindo de maneira mais implacável, e se ficamos por último, os últimos de pé naquele cenário de gente caída e mal articulada, também não foi ali que pude descobri-lo. Tomou-me o tempo que podia me falando de amenidades, cada um mantendo a fórceps os gestos contidos que, secretamente, imploravam por se precipitar, segurando na ponta dos dentes a conseqüência e o sentido dos discursos que agora proferíamos como ciência exata, e nem os dentes conseguiam impedir os leves soluços, o bafo quente da cerveja, a cara vermelha, os dedos amarelados pelo cigarro (filávamos o cigarro um do outro agora, mas nem assim, nem trocando cinzas eu ainda pudera perceber). Deve ter sido numa vez seguinte, na próxima garrafa que eu fazia sempre questão de abrir e servir – mantinha o abridor no bolso –, talvez tenha sido ali que abandonamos a faculdade, o vestibular, as rotinas, o passado daquele grupo e as maneiras como cada um de nós havia chegado ali naquela casa e naquela festa, e na cerveja seguinte a implacabilidade nos atingira. Mas era cedo para desmaiar, e por orgulho ou necessidade de sobrevivência, sentamos. Até a próxima cerveja, já nem existiam copos, só a graça.

Era ele, era Eduardo e eu já não entendia porque todos o chamavam por outro nome (que, suponho, fosse seu “verdadeiro”). Na soleira de uma porta, pernas coladas, olhos imóveis, atados entre si de maneira que já nem nos obedeciam, ele me falava de si – sem saber, talvez, que as palavras eram minhas, mas se esforçando bastante para perder o enunciado teatral, falava com tanta naturalidade que me fez rever minhas próprias críticas ao tom declamatório que, por vezes, percebia nos meus diálogos. Eu apenas o observava, e não posso dizer que não me divertia com tamanho mergulho no abismo daquilo que antes eram apenas folhas de papel num calhamaço que eu agora me perguntava se talvez não estivesse protegido o bastante, ou de que maneira aquele estranho tivera acesso àquilo? Entrei em seu pequeno exercício de simulação, e participava das histórias como se lá estivesse, na época e no lugar, atento a seus pequenos movimentos e seus grandes trejeitos (aquilo, talvez, eu devesse corrigir numa versão futura, me pareciam trejeitos demais). Estávamos juntos, no gramado da universidade, nas pedras que davam para o mar, na fuga desembestada para uma cidade qualquer – éramos ali, ele por dever e eu por pilhéria, dois fugitivos eventuais pegando carona para o interior, nos desviando de um amor mal traçado. Dividimos reuniões dos anônimos, e já não me lembro do que nos escondíamos, mas lá ele se apresentava e era aplaudido pela platéia (por “todos nós”), lá ele dizia seu nome, mas já não me lembrava daquele verdadeiro, só ouvia “Meu nome é Eduardo”, e via sua boca mexer e cuspir Eduardo na minha cara, seus braços se contorcerem e me entregarem Eduardo no colo, seu copo balançar no ar e me entornar Eduardo no peito.

Foi na soleira daquela porta, com os garotos e garotas perdidos para dentro da casa e o dia amanhecendo, com a cerveja no final e nenhum cigarro mais a filar, foi ali que descobri que era ele, o protagonista do livro que eu escrevia em segredo e que acumulava folhas na minha escrivaninha sem nunca saber exatamente se um dia veriam a luz daquele mesmo dia que amanhecia. Foi ali que descobri que os olhos que eu inventara eram na verdade castanhos (agora já não me lembro se fui assim tão específico na descrição, mas sempre os imaginei pretos). Ali Eduardo ganhou uma altura, um peso, uma cicatriz na dobra do cotovelo esquerdo, aqueles cabelos que certamente precisariam ser mais bem cortados uma vez que o livro chegasse às mãos de algum editor (sua revisora talvez reclamasse do aspecto infantil que lhe atribuía, mas agora já conquistado pelo cabelo mal raspado eu responderia: “mas este é um menino de 19 anos que sairá daqui e pegará o primeiro ônibus que aparecer, oras!”, algo que a revisora talvez nunca entendesse – eu mesmo não entendia). E eu já era capaz de defendê-lo em rigorosamente tudo, da voz embriagada como que por decreto até mesmo aquele excesso de trejeitos, agora apenas uma peculiaridade apaixonante, e quase perguntei onde tinha conseguido aquela cicatriz, uma vez que meu livro durava apenas alguns poucos dias e nesse intervalo eu não o submetera a qualquer acidente ou briga de facas, o que me fazia pensar que a cicatriz só podia ser parte do lastro que os atores precisam dar a seus personagens para fazê-los mais verdadeiros, um evento na infância que já não competia a mim, mas tão somente a ele, o Eduardo de nome falso na vida real, um moleque encrenqueiro dez anos antes, talvez.

Mas isso durou só até o momento em que os copos já estavam abandonados no chão e, com as mãos livres, nos tocamos pela primeira vez. Ele agora falava da família, e me parecia exagerar na necessidade de passado, mas antes que eu pudesse interrompê-lo e pedir que pulasse logo para o capítulo 14, aquele com o qual eu tinha mais ressalvas e que precisava aproveitar a chance para confirmar a potência literária através de sua encenação, e antes que eu pudesse interrompê-lo, segurou-me pelo braço e depois fez correr a mão até meu rosto, como quem precisa se escorar em alguém para não se espalhar pelo ar e sumir, e assim começou a chorar. Lembrei dos primeiros esboços do livro, da escaleta em que definia muito claramente que essa era uma prerrogativa do outro, seu parceiro no romance, nunca dele. Mas Eduardo chorava na minha frente, e apertava meu rosto como se exigisse o direito de fazê-lo – e por esse direito estivesse disposto até mesmo a me atribuir cicatriz igual a sua. Nem pretos nem castanhos, seus olhos tinham um jeito amendoado com um pé no verde, e na cor revelada pelas lágrimas pequenas e muito precisas (que bom ator ele era!), ou talvez pela luz que agora incidia sobre seu rosto (que mau observador eu era), ali ele foi se descolando do menino que eu escrevera, com uma violência que me irritava ao ponto do encanto. Suas adições ao meu enredo eram dissonantes, se não inverossímeis. Era preciso parar com aquilo, retomar fios e meadas, e não havia como chamar sua atenção se não oferecendo um pequeno sermão sobre a santidade do ato criador. Balbuciei seu nome, pela primeira vez em toda noite, muito gentil e cuidadoso para não me fazer equivocado, balbuciei seu nome e ele finalmente parou. Eduardo sorriu, e ainda com as mãos no meu rosto, segurou meu queixo como quem ensina uma criança a falar: “André, seu bobo”.

Nos beijamos. Corremos até um quarto desocupado, sem palavras, só cabelos mal cortados, cicatrizes, braços estendidos, cuspidos e entornados um no outro. Meu protagonista tinha gosto, e já não era meu, nem protagonista. André se despediu com um abraço longo, eu fui procurar as chaves do carro. Não nos vimos mais. Voltava para casa, sol totalmente descoberto, música alta e o gosto na boca. Minutos depois, já na rua, longe da festa e da casa da festa, vi um ônibus indo para algum lugar distante. André apareceu pelo vidro, estava fugindo, finalmente. E eu voltava para casa, para queimar uma pilha de papéis na escrivaninha.

Rodrigo de Oliveira

posted by RODRIGO DE OLIVEIRA 02:31 contato

9.12.08

Cheiro de ar 20h no Rio de Janeiro, e só agora a noite se fez completamente. Verão carioca, muito prazer, pode entrar.
posted by RODRIGO DE OLIVEIRA 20:08 contato

3.12.08

Lambe-lambe Fui renovar a carteira de motorista no centro da cidade, e pra isso precisava de novas fotos 3x4 (as últimas, de 5 anos atrás, eram de outro rapaz: cheio de cabelo, sem barba, sem rugas de expressão). Chego no lugar, uma lojinha pequena de porta de ferro e piso aqui-já-funcionou-um-boteco. Há uma antesala, formada pela divisão do ambiente único por uma cortina sem-vergonha de tão barata (verde, estampa de bambus). Na "sala de espera", uns poucos retratos na parede, de crianças e mal tirados. Abre-se a cortininha, e o fotógrafo, um senhor de 60 e poucos anos, me avisa que há uma cadeira ali e que o cliente atual já está terminando. Daí chego ao "estúdio": um rack desses das Casas Bahia, uma Nikon automática, um computador e o Photoshop aberto. O cara antes de mim paga os 10 reais pela foto feliz da vida: diz que remoçou uns 20 anos com os retoques virtuais do fotógrafo. Quando chega a minha vez, nada da postura ereta mantida na base da força, nada dos intermináveis toques e retoques na posição do rosto até que a coisa fique do jeito certinho, nenhum daqueles guarda-chuvinhas rebatendo um refletor pra suavizar as luzes na pele, nada. "Fica de pé, que é melhor", e pá!, flash na cara, como se fosse uma foto de cadeia ou de fotolog vagabundo. Mas depois vinha a magia: mexendo no mouse com uma velocidade que não vejo nem no mais recrudescido dos nerds, o senhorzinho fez de um tudo. Tirou uma espinha do meu queixo (quase tira a pinta debaixo do meu olho, se eu não aviso), passou um "blush" que me deixou com cara de bebê, sugeriu que eu trocasse a camiseta preta simples por algo "mais importante", como um terno (no arquivo dele existem vários, todos Armani), e só não brincou mais porque o próximo cliente já estava ansioso ali do lado para saber como seria sua própria transformação. 3x4 impresso, olho, olho, e o cara da foto parece a versão capa-da-Nova de mim mesmo.
posted by RODRIGO DE OLIVEIRA 20:38 contato

2.12.08

Encontros cósmicos O mundo dá voltas e se encaminha, até que uma amiga minha, que herdara a geladeira usada por Paulo Leminski para guardar suas cervejas, firma o namoro com outro amigo meu, que acaba de ganhar a câmera Super-8 que foi, por 30 anos, do Paulinho da Viola.
posted by RODRIGO DE OLIVEIRA 11:04 contato

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