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4.7.08Vendredi soir Um amigo que há muito não vejo liga dizendo que descobriu um barzinho numa ladeira aqui do lado de casa, onde rola uma bandinha de jazz ao vivo. "Eles estão no intervalo, vem pra cá". É um ambiente pequeno, boteco em que os músicos mal cabem lá dentro, e a fila do banheiro se dá em frente à bateria (é de se pensar quantas vezes uma pessoa apertada não foi atingida sem querer pela baqueta do pobre músico). No centro daquilo que chamam de palco, diversos badulaques ostentam um retrato de Zé Bonitinho em Abismu, meu filme preferido do Mr. Sganzerlá. A banda deve ter um nome, mas eu nunca o saberei. Tocam jazz contemporâneo, algo entre um Sanseverino e um Andrew Bird na fase Thrills. A guitarra do sujeito é linda, a cerveja é cara, e o dono do bar, seu Nonô, se anuncia mal-humorado já no cardápio (algo que só se confirma uma vez que tente comprar uma cerveja no balcão com ele). E então, entre acordes e trovoadas, começa a chover, e muito. Vou pra casa ensopado, o All-Star fazendo aquele barulhinho de cama-velha-enquanto-se-transa-sobre-ela. Ah, o Rio de Janeiro. Ah, este bairro deliciosamente decadente da Glória: o Montmartre carioca.
OH, OS TEMPOS, ELES ESTÃO MUDANDO
1.7.08Bis Terça-feira à noite, fria como o diabo. Uma taça de cabernet franc, um livro do Serge Daney, Maiden Voyage, obra-prima de 1965 do Herbie Hancock e os pés enrolados no cobertor. Sentirei saudades desse espírito acadêmico.
30.6.08Acelerou, acelerou No original, em inglês, A Hard Day's Night. No Brasil, Os Reis do Iê-iê-iê. Em Portugal, perdoai-vos Santa Guadalupe da Imaculada Titulação: As Quatro Cabeleiras do Após Calypso.
Allez le noir Vendo "Stress", o clipe novo do Justice (no MySpace deles), com a memória de um filme de ação muito bom e bastante vagabundo chamado B13 - 13º distrito (que passava no Telecine volta e meia), e ainda sem ter visto os produtos-culturais-de-alto-valor-intelectual Entre Les Murs (o vencedor de Cannes) e O Segredo do Grão, fico com a impressão que é na expressão mais popular - e, sobretudo, mais iminentemente física, vide a câmera de "Stress", cuja natureza se transforma ao longo do clipe, e a utilização de técnicas do Le Parkour, e não o clássico kung-fu ou qualquer arte marcial oriental, no B13 - que melhor tem se falado sobre a segregação racial entre franceses e imigrantes, coisa que mês sim, mês não, vemos estourar no jornal em mais uma onda de carros queimados ou lojas destruídas.
27.6.08Rio 17 graus Chega o inverno, as banquinhas na rua empilhadas daquelas caixinhas, e eu não resisto. Fiz um pote cheio de geléia de morango na segunda-feira, e hoje ele já está pelo fim. No dial, Bill Evans, os 18 discos que ele lançou pelo selo da Verve. Moleton dos pés a cabeça. Livros e livros, páginas em branco a serem preenchidas. É isso: geléia de morango, Bill Evans, filmes em preto-e-branco, livros de cinema. Eis a overdose de um sujeito careta.
26.6.08PORVIR
23.6.08O fim está próximo Sonny Rollins vem ao Tim Festival. Depois do show, em outubro, todo cuidado com o apocalipse, ok?
22.6.08Ironia Mon Amour O Grande Prêmio da França de Fórmula 1 é disputado no circuito de Magny-Cours. E Magny-Cours fica em Nevers. Nevers, na França.
21.6.08COBERTURA DO 3º CINEOP - MOSTRA DE CINEMA DE OURO PRETO
19.6.08Amigo é pra essas coisas, ah... Num post em seu blog, Vitor Graize, desses caras com quem eu estarei jogando bocha no asilo, aos 95 anos, me fez chorar no meio da sala de imprensa do festival de Ouro Preto. Isso não se faz, hein, Vitor!
13.6.08Que tipo de idiota termina um namoro justo no Dia dos Namorados, no meio de uma comemoração que tinha tudo para terminar em uma grande celebração da relação recém-firmada? Eu.
11.6.08Filosofia de rede-de-deitar Escrever uma monografia é muito parecido com, digamos, estar grávido (e falo por experiência própria, que o digam essas quatro crianças remelentas que pari, destruindo aquele corpo delgado que eu tinha na juventude, moleques mal-criados que ficam aqui zanzando em volta do computador, mal me deixando postar). Enfim, como estar grávido: é um mundo de pequenas dores, de uma ligeira invalidez (há dias em que simplesmente não se pode levantar da cadeira, não se pode abandonar a escrivaninha: é preciso convalescer sobre os livros). E, na outra ponta da experiência, um mundo de prazeres secretos finalmente saciados sem o constrangimento e a repressão de antes. Agora, por exemplo: escapando sem cerimônias do Jacques Aumont que não me deixa dormir em paz, na quebra entre o penúltimo e o último capítulo do livro, vamos à realização do desejo mesquinho e humano, tão demasiadamente humano. Deitado na rede, computador no colo, lata de cerveja aberta, uma porção de calabresa e cebola fritas no prato, aprontada com os restos do jantar de ontem, um jogo de futebol divertido na tevê. Chego quase a desejar que essa criança demore um pouco mais a nascer: que alegres e deliciosamente inúteis são estas noites de "folga".
8.6.08CONFISSÕES DE UM INCENDIÁRIO
4.6.08Prince canta Creep, ou "Parem de destruir meus sonhos adolescentes".
3.6.08QUATRO NOVAS CRÍTICAS
Os últimos dias Vim à Vitória numa passagem inicialmente relâmpago, só para uma consulta com meu psiquiatra, a renovação das receitas médicas e a garantia de comprimidos milagrosos pelos próximos dois meses, mas essa cidade tem sobre mim um apelo insuperável. Fui ficando, um amigo fazia aniversário aqui. Fui ficando, outro amigo se despedia da turma rumo à Angola acolá. Fui ficando, e como não podia me desviar do caminho do bem (leia-se: terminar minha monografia de graduação), e como na casa dos meus pais eu só faço ver reprises de Gilmore Girls e comer a profusão de bolos e docinhos que sempre fazem pra tentar me convencer a voltar a morar aqui, passei os últimos 6 dias na lindíssima Biblioteca da Ufes, minha antiga universidade. Eu e essa biblioteca temos uma história, como praticamente todos os lugares que visito aqui em Vitória: alguma coisa sempre começou ou terminou ali, alguma aventura, algum trauma, muitas alegrias, alguns porres. Nessa biblioteca eu já comecei um namoro, já consumei um outro (ok, atire a primeira pedra quem não curte a adrenalina da sacanagem em lugares públicos). Ali eu li Giovanni, do James Baldwin, pela primeira vez, e por causa da boa coleção de livros de cinema disponíveis, pude fingir que não cursava jornalismo por muitos semestres, até que decidisse finalmente abandonar o curso, e as visitas quase diárias àquele lugar. Há três anos eu não entrava ali, e agora eu não quero mais sair. Vou dedicar minha monografia a essa biblioteca.
No seu dial Sexta-feira eu estava terminando de executar uma baliza complicadíssima (dois carros muito mais caros que o meu estacionados bem próximos, e um espaço entre eles onde só muita habilidade - ou 10 minutos de manobras - me fariam caber à perfeição). Quando finalmente termino a série de exercícios físicos no volante, ainda na adrenalina e na tensão de pensar em checar se aquele barulho que ouvi não era uma leve batida no Audi da frente, me ligam. "Alô, Rodrigo de Oliveira? Aqui é da Rádio MEC.". Sem pensar duas vezes, respondo sem nem mesmo dar bom dia à moça: "Puxa, quem morreu?". Nos 5 nanosegundos entre o pensamento e a pergunta que fiz, lembrei que da última vez que haviam me ligado era para comentar, num dos programas deles, a morte do Antonioni - que, à altura da ligação, eu nem sabia que havia morrido. Ainda nestes 5 nanosegundos, pensei que era tarde demais para que me pedissem para discorrer sobre o recém-falecido Sidney Pollack, e nestes mesmos nanosegundos me dei conta que poderia passar horas falando da atuação dele no De Olhos Bem Fechados, mas que sobre a carreira dele eu só teria dois ou três destaques a comentar: não é de bom-tom falar que um morto recente era um diretor entre o medíocre e o eficiente. Pois 5 nanosegundos, graças a Deus, passam bem rápido, e a moça no telefone logo me disse que ninguém havia morrido, e que estava me convidando para comentar alguns destaques do circuito comercial num programa chamado "No Escurinho do Cinema", toda semana eles chamam um crítico pra fazer isso. A coisa foi ao ar às dez pra uma da tarde, e em se tratando de Rádio MEC, não só a música que me precedeu era do Ataulfo Paiva, como os 5 minutos iniciais se transformaram em 17, onde a apresentadora e eu ficamos batendo papo sobre O Tempo e o Lugar, Falsa Loura e Cleópatra. Cineastas velhinhos e/ou doentes: favor não morrer. Prefiro falar sobre filmes, ok?
20.5.08EU PODERIA FACILMENTE ME ACOSTUMAR A...
16.5.08AGORA FALTA PLANTAR UMA ÁRVORE (E TER UM FILHO*)
15.5.08Grands soirs & petits choses Dizem que envelhecer é isso, né. Mas estou aqui a alguns minutos de voltar aos livros e jantando, depois de 4 anos de vida forno-e-fogão, o melhor e mais perfeito omelete que já fiz. Ricota amassada, cenoura ralada, um pouco de cebola, leite, dois ovos caipiras, um pouco de maizena e manteiga, manjericão e pimenta-do-reino, e um jogo de eficiência e contenção na hora de dourar os lados e virar o omelete que eu vou te contar, viu... Ficou do tamanho de um prato, douradinho, consistente, bem cozido, lindo.
11.5.08Dimanche Dilynch Essa friaca que está fazendo no Rio, um fim de semana passado todo em casa, de moleton da cabeça aos pés, em que me dou o direito de só tomar um banho de gato, rapidinho, e aí no dia seguinte o sujeito acorda cedinho pra ver a corrida de Fórmula 1 e quando se olha no espelho, bah, seu cabelo está igualzinho ao cara do Eraserhead.
9.5.08PROGRAMADORA BRASIL
TEXTOS (NÃO TÃO) NOVOS NA CONTRACAMPO
Revolução dos Bichos Acordei cedo hoje, fui comprar o jornal antes do café. Na porta do meu prédio tinha uma galinha. Eu disse "Bom dia!", ela retrucou "Bom pra quem?", e eu segui meu rumo. Acho que acordei cedo demais.
O que é que há, velhinho? Eu sempre costumava responder à perguntas do tipo "por que você faz cinema?" ou "como é estudar isso?" com grandes elucubrações sobre o fazer e pensar artístico e tudo o mais que fosse necessário para levar à cama aquele que perguntasse isso. Mas agora, mesmo correndo o risco de não impressionar tanto assim, preciso mudar a resposta: é porque, no fim de um dia cheio de leitura teórica enjoada, eu preciso assistir Duck Amuck, a pequena obra-prima de Chuck Jones, para poder citá-la na minha monografia. And that's all, folks.
8.5.08Clin d'oeil e outras travessuras O sujeito está há uma semana mergulhado em filmes de terror e/ou fantásticos pela noite, revisões cronológicas da obra de Godard na madrugada, livros e anotações de fundo monográfico-graduacional durante o dia inteiro, com cloxazolam e cloridrato de fluoxetina batendo na cabeça. Então vai fazer seu jantar, antes de seguir com o próximo capítulo daquele livro chato-mas-necessário. Enquanto o risoto de frango vai cozinhando ali no fogão, o sujeito decide ralar uma cenoura, fazer uma salada e tal. E aí, sem que nada antecipasse seu pensamento ou qualquer freio pudesse existir entre seu cérebro e suas mãos, o sujeito pensa honestamente, como se algo sensato e concreto fosse: "Hum, por que não ralar esta cenoura na velocidade 5 do Créu?". E depois de colocar o band-aid no dedo acidentalmente ralado junto do vegetal, o sujeito ainda busca restos da brincadeira no teto, na pia, nas paredes e em lugares onde o sol não alcança.
Há um futuro A resposta da ministra Dilma Rouseff ao senador José Agrippino sobre a mentira dita sob tortura é, disparado, o momento mais arrepiante do ano (da política, da arte, da vã filosofia, das cotidianidades, da página policial, de tudo isso e todo o resto). É bom saber, tão cedo no processo, que o presidente Lula tem uma sucessora desse grandeza.
2.5.08A MEMÓRIA DAS MÃOS
30.4.08E ENTÃO VEIO A ONDA...
29.4.08Mas cuidado, a brincadeira pode causar... O sujeito acorda no dia seguinte a um porre de muita cerveja e aquela cachaça especial que seu pai lhe deu de presente, e que ele levou para a casa dos amigos num cantilzinho de metal feito aqueles dos filmes. Chegou em casa sem saber como, dormiu sem saber que horas, acordou sem lembrar quem era. Com 5 minutos de olhos abertos, até já consegue recordar o nome, o lugar em que está, quem são aquelas pessoas que lhe dão "bom dia" e insistem que tome bastante água. Mas o diabo é que, depois de muito se questionar, é só lá pelas 2 horas da tarde que finalmente consegue explicar aquela dor absurda que sente nas dobras dos dedos da mão direita, que estão completamente roxas e inchadas: tocava-se um sambinha na festa do dia anterior, e o sujeito embriagado inventou de tocar o tamborim in natura, sem baqueta, só com a mão. Ah, tá.
26.4.08The later parade Essas paixões novas e arrebatadores costumam te fazer querer ser uma pessoa melhor. Ou, diante da impossibilidade de sê-lo (no meu caso), pelo menos ter cuecas melhores.
25.4.08Hoje, em A Gazeta Saiu uma críticazinha minha sobre o Chega de Saudade, que estréia aqui no Espírito Santo só agora. Mas a felicidade maior foi dividir o mesmo Caderno Dois com a notícia da seleção de Areia, obra-prima em curta-metragem do queridíssimo Caetano Gotardo, para abrir a Semana da Crítica do próximo Festival de Cannes. Anotem aí o nome dessa cara, porque ele ainda fará grandes coisas no cinema. E nem é uma aposta, é uma certeza.
24.4.08A grande armadura negra Pior que um amor de verão é um amor de fim de verão. É quando se prova, cientificamente, que um dia (de ausência) pode durar uma eternidade. O resto é entregar na mão de Deus, que graças a Ele próprio, criou os cheiros que permanecem na roupa e as mensagens de texto via celular.
The Wonder Years, Days and Nights Sempre o pego na saída do trabalho, por volta das sete. Ele chega cansado, mas é só sorrisos quando entra no carro. Vamos pro alto de um morro, com vista para o mar, a lua, e a cidade toda que cresce luminosa do outro lado da baía. Faróis apagados, namorando no carro, ouvindo música baixinho, trocando carinhos, como nos filmes americanos.
23.4.08Revoluções por minuto Acordei ontem de manhã com "The Greatest", da Cat Power, na cabeça. Música na linha desta "Pretty (Ugly Before)" aí embaixo, um suporte emocional que tipos como eu sempre recusaram, até o momento em que os anti-depressivos te fazem experimentar sensações que tu nem sabia possíveis antes, inclusive aquela de usar música como remédio adicional no tratamento. "Uma vez eu achei que poderia ser o máximo, nenhum vento ou queda d'água poderia me segurar, mas então veio a força da correnteza, estrelas da noite se transformando em poeira". O sujeito ouve isso e pensa: bah, será que meu analista andou conversando sobre meu caso com a Cat Power? Sabe, o tipo de frivolidade que eu nunca me permiti, mas que agora parece fazer tanto sentido. E então o que foi se estabelecendo ao longo do dia como o testamento involuntário dessa fortaleza que se descobre vulnerabilíssima acaba, durante a noite, se transformando na música-tema da relação mais saudável que inicio em anos. "The Greatest", quem diria, é também a trilha sonora perfeita para as três horas em que eu recebi os melhores beijos da minha vida.
21.4.08Voltamos No começo deste blog, cinco anos atrás, tinha prometido pra mim mesmo - um tanto de brincadeira, é verdade - que o dia que minha presença numa Casa de Loucos se tornasse real, essa Casa virtual deixaria de existir. Verdade que o dia chegou, umas semanas atrás, mas abandonar isso aqui me parece um despropósito (ou, pelo menos, é o que me fez crer meu médico). Assim, voltamos. Cheios de assuntos, cheios de remédios, e com um pouco menos de meninice.
7.4.08
5.4.08A DOÇURA É SENHORA, DESDE QUE O SAMBA É SAMBA É ASSIM
22.3.08Dans la route Em algum lugar entre o Rio de Janeiro e Vitória, às duas e meia da madrugada de hoje, um cachorro cheirou a minha mala. E quisera eu estar falando em metáforas aqui, meus caros.
21.3.08Summerday 3 da tarde de um feriado, a Praça XV deserta, até que cheguem alguns ônibus de viagem, trazendo turistas que caíram na história da comemoração dos 200 anos de chegada da Família Real por aqui. Vão tirar fotos do Paço Imperial, da Igreja, da estátua de D. Pedro em seu cavalo, e vão embora. Eu fico por ali, pra rever Senhores do Crime numa tela bem menor que o filme merece (mas que ainda assim não consegue diminuir sua grandeza). Na saída, o sol se pondo, as ruas desertas, e o compromisso de pegar outro filme às 6, lá no Catete. Parto à pé, e como me sobra tempo, pego o caminho mais longo, via Aterro do Flamengo. O centro do Rio em dia de feriado me lembra sempre Bang Bang. As ruas largas, os prédios formando um corredor, e os diversos cruzamentos: posso ver um sujeito andando à deriva por ali, até que encontre seu jipe estacionado, e uma equipe de cinema atrás dele, montada num carro, brincando de travelling. Parte fundamental da minha experiência urbana nos últimos seis meses, sigo andando e cantando alto Emily, da Joanna Newsom, que a essa altura já sei de cor (12 minutos é o tempo da música, e o tempo exato entre o cineminha do Paço e o MAM). O dia era daqueles que nos obrigam à conformação com a nossa pequenez (física, até: nada menos que dois arco-íris saindo detrás dos letreiros antigos da Vasp no Santos Dumont). A praia está lotada, e ali bate água da Baía da Guanabara, mas o pessoal não parece se importar muito com isso. Na hora de atravessar o Aterro e finalmente chegar no cineminha do Museu da República, faltando ainda meia hora pra começar a sessão, fico observando uma molecada jogar basquete. Meia hora de folga, e pelo menos 5 anos de diferença entre mim e o menino mais velho em quadra, e achei que poderia dar uma suadinha rápida antes do filme do Honoré. Entrei no time de fora, mas quando chegou a minha vez, já não eram mais meninos. Com a marmanjada toda preparada e eu de sandália (jogar descalço no chão quente dá essa bolha que tenho agora no dedão do pé), blusa de botão, bermuda grossa, celular e mp3player no bolso, fui na raça - e na pura falta de senso. Toda vez que o pé ameaçava doer, eu pegava a bola, partia pra dentro y ya está, balón al cesto. Um masoquismo de ocasião, mas provavelmente é disso que são feitos os cestinhas de ocasião. Jogo três partidas seguidas de 25 pontos (todas elas indo pro desempate de mais 10 pontos). Tudo bem que eu acertava minhas bolinhas, mas o cara mais alto da quadra tava no meu time, e ainda que fosse um pivô pouco treinado, ninguém ganhava dele no garrafão. Camisa ensopada, e a essa altura eu só queria conseguir andar de volta pra casa sem precisar tomar um táxi, ou uma ambulância. Perdemos uma, finalmente, depois de uma hora e meia direto. Essas reuniões em quadra pública são sempre maneiras, um bando de gente de quem nem desconfio a existência diária, mas que ali formam um grupo que reconheço desde que comecei a jogar basquete, ainda moleque. Sempre tem um branquinho muito mais baixo que a média (hoje eram dois), um negão com filho e/ou sobrinho, pivôs de boné para trás, uma bicha, uns moleques magrelos de óculos, dois ou três perebas esforçados, um pereba arrogante, que sabe que está estragando um time mas insiste em ficar (geralmente essa é o dono da bola), caras de topete com gel que combinam o calção com a cor do tênis, além da criançada que fica em volta assistindo. E, de agora em diante, toda sexta e sábado a partir das 5 da tarde, deve ter eu também. De tênis verde escuro. E uma bermuda meio musgo. Tom sobre tom, né.
Feriadão Geral já preparando o churrascão na laje, a cerveja gelando no tonel de plástico azul, as crianças preocupadas que o ovo só chega no domingo, mas o mundo não pode parar, né? Então deixa um estagiário na redação da Globo.com cobrindo o feriado da galera. Melhor: deixa ele lá sem um editor por perto, e diz que ele tem uma cota de 20 matérias para postar no site antes do meio-dia. E, pra melhorar, diz que ele vai ficar de olho do BBB, e que cada espiadinha precisa virar uma manchete - manchete chamativa, bem entendido, porque tá cheio de gente querendo saber o que anda acontecendo na casa mais
AGORA A POUCO, NO INTERCINE
19.3.08Deu a lógica Num paredão de cartas marcadas, onde só se completa um programa de uma hora se 15 minutos dela forem dedicados às saudades do Dr. Marcelo (casal preferido de Boninho/Bial no BBB8: Rafinha e Marcelo, obviamente), em que todo esforço de edição é para tentar desfibrilar participantes pra-lá-de-Marrakesh, num paredão desses deu a lógica: quando rolou a eliminação do Juninho Play, eu cochilava gostosamente, sem culpa nenhuma.
18.3.08Stand-up Um pereba. Esforçado, bom de corrida, boa visão do jogo, passes bem colocados, chutes de média potência no mais das vezes certeiros, mas ainda assim um pereba. Mas é na beira da quadra, tomando uma água enquanto os amigos ainda se esfalfam para tentar vencer uma pelada contra um pessoal especialista (Cinema 2 x 42 Educação Física, em uma hora de jogo), enfim, é na beira da quadra, comentando todos os lances com aquele sarcasmo peculiar e sempre inteligente, é ali que eu tenho mais certeza que sou engraçado pracaráleo. O que, como bem diz um amigo capixaba, é típico de quem foi uma criança gorda.
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